A violência nas escolas públicas do Distrito Federal deixou de ser um caso isolado para se tornar parte dolorosa da rotina de muitos alunos, professores e famílias. São histórias de medo que atravessam os muros das salas de aula, revelando um ambiente que deveria ser de aprendizado, mas que tem sido marcado pela insegurança.
Com 1.647 unidades escolares acompanhadas pelo Batalhão de Polícia Escolar — cuja atuação se limita, em geral, às áreas externas —, a sensação de desproteção dentro das instituições de ensino é crescente. E os dados e episódios recentes confirmam esse cenário preocupante.
Na última semana, um caso chocante abalou a comunidade da Escola Classe 203 do Itapoã: um professor temporário foi preso acusado de abusar sexualmente de uma aluna de apenas 4 anos. Exames confirmaram o crime. Poucos dias antes, no Riacho Fundo II, uma briga entre dois adolescentes terminou com um deles esfaqueado no peito.
Esses episódios, infelizmente, não são exceções. Só em 2024, já foram registrados 343 casos de lesão corporal dolosa nas escolas do DF — um aumento de 24% em relação ao ano anterior, segundo dados da Polícia Civil. Além disso, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública identificou mais de 2.500 casos de bullying apenas neste ano.
Diante desse quadro, famílias, educadores e estudantes vêm clamando por ações concretas que garantam um ambiente escolar mais seguro. Muitos professores relatam episódios frequentes de ameaças e agressões verbais e físicas. Pais, por sua vez, se veem inseguros ao deixar seus filhos na escola.
Em resposta, o deputado distrital Roosevelt Vilela (PL) apresentou, nesta terça-feira (14), o Projeto de Lei 1211/2024, que propõe a instalação de câmeras de segurança em áreas comuns das escolas públicas, como entradas, corredores, pátios e salas de aula — sempre resguardando espaços como banheiros e vestiários.
A proposta foi construída com base em pesquisas de opinião feitas com pais e professores, e segue uma tendência já adotada em estados como São Paulo, Rio Grande do Sul, Bahia e no município de Fortaleza, onde os sistemas de monitoramento auxiliaram na prevenção e apuração de casos de violência.
Mais do que vigiar, a intenção é proteger. O sistema proposto prevê armazenamento de imagens por até 90 dias, permitindo respostas mais rápidas e eficazes em situações de emergência.
No entanto, a proposta também gerou debates. Entidades sindicais, como o Sinpro-DF, manifestaram preocupações quanto à possibilidade de uso indevido das imagens e à autonomia pedagógica dos docentes. Parlamentares da oposição alertaram sobre os riscos de uma abordagem meramente punitiva.
É legítimo e necessário discutir os limites éticos e pedagógicos de qualquer medida de segurança. Mas é igualmente essencial que esse debate não ignore a realidade concreta vivida nas escolas: professores e alunos estão, sim, vulneráveis. E a omissão ou paralisia diante da violência também tem consequências graves.
A sessão que discutiria a votação do PL foi marcada por obstruções e não chegou a deliberar sobre a proposta. O episódio reacendeu críticas à condução política do tema e à falta de prioridade dada ao problema da violência nas escolas.
Mais do que uma disputa partidária, trata-se de um desafio coletivo: como garantir que nossas escolas sejam espaços de acolhimento, aprendizado e proteção?
A instalação de câmeras pode não ser a solução única — nem definitiva —, mas precisa ser encarada como parte de uma política mais ampla de cuidado com a comunidade escolar. Isso inclui investimento em saúde mental, formação continuada para educadores, programas de mediação de conflitos e escuta ativa das famílias.
A escola não pode ser um lugar de medo. Cada criança e jovem que atravessa seus portões merece sentir-se segura para aprender, brincar e crescer. E cada profissional da educação merece respeito, reconhecimento e condições para ensinar com dignidade.
Num tempo em que a violência tenta impor o silêncio, que a sociedade — por meio do diálogo, da escuta e da ação — responda com empatia, responsabilidade e coragem.
