Uma abordagem feita no momento certo pode representar o início de uma nova trajetória para quem vive nas ruas. No Distrito Federal, a estratégia de busca ativa adotada pelo programa Acolhe DF tem ampliado o número de pessoas que aceitam, de forma voluntária, ingressar em tratamento para dependência química e acessar outros serviços públicos voltados à reconstrução de suas vidas.
Desde a reformulação do programa, oficializada em julho de 2025, 390 pessoas aceitaram o acolhimento em comunidades terapêuticas. O resultado corresponde a cerca de 43% dos 908 atendimentos realizados pelas equipes da Secretaria de Justiça e Cidadania (Sejus-DF) ao longo dos últimos 11 meses, percentual superior ao registrado antes da ampliação das ações, quando a adesão era de aproximadamente 31%.
As equipes atuam principalmente no Plano Piloto, mas também realizam abordagens em regiões como Taguatinga, Ceilândia e nas unidades do Hotel Social. O trabalho vai além do encaminhamento para tratamento. Cada atendimento é conduzido de forma individualizada, buscando compreender a realidade da pessoa, apresentar alternativas e criar um ambiente de confiança para que ela aceite iniciar um processo de mudança.
Para o subsecretário de Enfrentamento às Drogas da Sejus-DF, Diego Moreno, a continuidade das abordagens é um dos fatores que explicam o crescimento da adesão ao programa. Segundo ele, muitas pessoas chegam desacreditadas, mas, à medida que percebem que existe uma rede preparada para oferecer apoio sem imposições, tornam-se mais abertas ao tratamento. Na avaliação do gestor, os resultados alcançados refletem justamente esse vínculo construído diariamente pelas equipes nas ruas.
Além das vagas em comunidades terapêuticas, o Acolhe DF também conecta os atendidos a outros serviços públicos. Entre julho de 2025 e junho deste ano, foram registrados 63 encaminhamentos para programas habitacionais da Codhab, 53 para oportunidades de emprego, 35 para atendimento na rede de saúde, 28 retornos para acompanhamento, 15 retornos aos estados de origem e sete reintegrações ao convívio familiar.
Entre as pessoas beneficiadas está Carlos Santos, nome fictício utilizado para preservar sua identidade. Aos 42 anos, ele passou mais de três anos vivendo nas ruas da região central de Brasília, período em que perdeu o contato com familiares e enfrentou o agravamento da dependência química.
Após ser abordado diversas vezes pelas equipes do programa, decidiu aceitar o acolhimento. Hoje, participa das atividades da comunidade terapêutica e já faz planos para reconstruir sua vida.
Carlos conta que, no início, não acreditava que conseguiria mudar de realidade. Segundo ele, a forma respeitosa com que foi tratado pelas equipes, sem cobranças ou pressão, fez com que enxergasse uma oportunidade concreta de recomeçar. Agora, afirma que voltou a acreditar no futuro e na possibilidade de reconstruir a própria história.
Na avaliação do secretário de Justiça e Cidadania interino, Jaime Santana, o programa demonstra que políticas públicas voltadas à população em situação de rua precisam ir além do atendimento emergencial. Ele destaca que o objetivo é oferecer condições para que essas pessoas recuperem a autonomia, restabeleçam vínculos e tenham acesso a oportunidades que permitam uma mudança definitiva de vida. Para o gestor, os resultados obtidos mostram que o trabalho desenvolvido pelo Acolhe DF já tem produzido impactos concretos na reinserção social de centenas de pessoas.
