A atuação da Polícia Militar do Distrito Federal no episódio envolvendo o deputado distrital Fábio Félix (PSOL), durante o bloco Rebu, no Setor Comercial Sul, reacende um debate que vai além de um fato isolado: trata-se da autoridade do Estado, do respeito às instituições e dos limites da atuação política em meio a operações de segurança pública.
Em plena segunda-feira (16), no auge da folia, a PMDF executava uma operação preventiva, planejada para garantir a ordem em um dos pontos mais movimentados do Carnaval. A ação teve início após um cão farejador do BPCães indicar possível presença de entorpecentes em uma tenda. Dois homens foram abordados e receberam voz de prisão por suspeita de comercialização de maconha.
Segundo relatos da corporação, uma organizadora do evento teria tentado impedir a condução dos suspeitos, incentivando filmagens e incitando foliões contra os policiais, o que teria gerado tumulto e configurado resistência. Em meio à aglomeração crescente e à tensão no local, um policial utilizou spray de pimenta — instrumento não letal previsto nos protocolos de controle de distúrbios — para dispersar a multidão e preservar a integridade da equipe e do público.
O uso do spray, comum em grandes eventos, integra a chamada escala progressiva da força. Trata-se de medida intermediária, adotada justamente para evitar situações mais graves, como confronto físico direto ou emprego de armamento letal. Em cenários de alta concentração de pessoas, a prioridade operacional é conter o risco sem ampliar danos.
O deputado Fábio Félix interveio na ocorrência, questionou a prisão e entrou no perímetro da contenção. Durante a confusão, acabou atingido pelo spray ao se posicionar no centro da ação policial. O episódio agora ganha contornos políticos, com versões divergentes e acusações em ambos os sentidos.
Mais do que personalizar o caso, é fundamental refletir sobre o papel institucional de cada agente público. Parlamentares têm a prerrogativa de fiscalizar e cobrar transparência das forças de segurança. No entanto, operações em andamento exigem cautela, sob pena de comprometer a atuação técnica e gerar riscos adicionais.
Por outro lado, as forças policiais também devem estar permanentemente submetidas ao escrutínio democrático, garantindo que sua atuação seja pautada pela legalidade, proporcionalidade e respeito aos direitos individuais.
O contexto do Carnaval reforça a complexidade da missão. Enquanto centenas de milhares de foliões ocupam as ruas, policiais trabalham em jornadas exaustivas para prevenir crimes, coibir o porte de armas e impedir a circulação de drogas. Só no primeiro dia de operação, foram apreendidas 119 armas brancas — entre facas, tesouras e socos ingleses — além de dezenas de porções de drogas e objetos proibidos. Cada item retirado de circulação representa um potencial conflito evitado.
A integração entre PMDF, Corpo de Bombeiros e demais órgãos de segurança demonstra que há planejamento e estratégia por trás das ações ostensivas. O baixo índice de ocorrências graves até o momento indica que a política de prevenção tem surtido efeito.
O episódio no bloco Rebu não deve ser tratado apenas como confronto entre polícia e parlamentar, mas como oportunidade de reforçar o diálogo institucional. Segurança pública é um direito da população e um dever do Estado — e sua execução exige equilíbrio entre autoridade, responsabilidade e fiscalização.
Em um ambiente democrático, o respeito às instituições e aos seus limites é condição essencial para que a ordem pública e as liberdades individuais caminhem juntas.
