DF institucionaliza pesquisa sobre violência contra a mulher após levantamento inédito

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O Distrito Federal passará a contar com um monitoramento permanente sobre a violência contra a mulher. O anúncio foi feito nesta sexta-feira (12), durante a apresentação dos resultados da pesquisa Panorama da Violência contra a Mulher no DF, levantamento inédito que ouviu mais de 5 mil pessoas e entrevistou autores de feminicídio presos no Complexo da Papuda.

Na ocasião, a governadora Celina Leão confirmou a assinatura de um decreto que institucionaliza o estudo, garantindo sua realização a cada dois anos. A medida pretende acompanhar a evolução dos indicadores e fornecer informações para o aprimoramento das políticas públicas voltadas à proteção das mulheres.

“Ter dados produzidos pelo próprio poder público permite enxergar com mais clareza a realidade que estamos enfrentando. Esse trabalho nos ajuda a identificar tendências, entender comportamentos e planejar ações mais eficientes para combater a violência contra as mulheres”, afirmou a governadora.

Considerada uma das maiores pesquisas já realizadas sobre o tema no país por um ente federativo, a iniciativa foi coordenada pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF), em parceria com a Secretaria da Mulher (SMDF) e a Secretaria de Administração Penitenciária (Seape).

O levantamento foi desenvolvido em duas etapas. A primeira ouviu 5.093 pessoas em diferentes regiões administrativas do DF. A segunda aprofundou a investigação por meio de entrevistas com 39 homens condenados por feminicídio, permitindo aos pesquisadores analisar fatores comportamentais e circunstâncias que antecederam os crimes.

“Um dos nossos objetivos foi compreender como a violência se constrói ao longo do tempo até chegar ao seu estágio mais extremo. Ouvir esses detentos trouxe elementos importantes para identificar padrões e auxiliar na formulação de estratégias de prevenção”, destacou o presidente do IPEDF, Manoel Clementino.

Os relatos dos entrevistados apontam que os feminicídios normalmente não acontecem de forma repentina. Em muitos casos, os crimes foram precedidos por comportamentos de controle, possessividade, ameaças, agressões físicas e tentativas de limitar a autonomia das vítimas.

Entre os números apresentados, 77,6% das mulheres afirmaram já ter sofrido algum tipo de violência ao longo da vida. O estudo também identificou que 44,8% reconhecem ter sido vítimas de violência e que 15,4% continuam mantendo algum tipo de relação com o agressor.

A dependência financeira aparece como um dos fatores mais frequentemente associados à permanência das mulheres em relacionamentos abusivos. Outro dado que chamou a atenção dos pesquisadores foi a dificuldade de parte da população em identificar determinadas formas de violência.

Segundo o levantamento, 49,4% dos entrevistados não consideram que impedir uma mulher de administrar ou acessar o próprio dinheiro seja sempre uma prática violenta. Apenas 33,8% das mulheres e 19,7% dos homens reconheceram corretamente todas as situações de violência apresentadas durante a pesquisa.

O estudo também revelou a permanência de percepções machistas na sociedade. Afirmações como “mulher é o sexo frágil”, “toda mulher é um pouco histérica” e “há mulheres para casar e mulheres para cama” ainda encontram níveis significativos de concordância entre os entrevistados.

Para o secretário de Segurança Pública do DF, Alexandre Patury, os resultados ajudam a confirmar uma realidade que as forças de segurança acompanham diariamente. “Recebemos alertas constantes de violência doméstica e sabemos que os registros oficiais representam apenas parte do problema. Muitas mulheres ainda deixam de procurar ajuda por medo, dependência emocional ou questões financeiras”, afirmou.

O secretário ressaltou que o enfrentamento da violência exige atuação integrada de diferentes áreas. “Não é uma questão que será resolvida apenas pela polícia. É um desafio que envolve educação, conscientização, oportunidades e mudança cultural”, observou.

A pesquisa também identificou diferenças entre as regiões administrativas. Em áreas com renda mais elevada, os moradores demonstram maior capacidade de reconhecer situações de violência. Já nas regiões de menor renda, embora exista maior percepção da ocorrência dos casos, o entendimento sobre as diferentes formas de agressão ainda é mais limitado.

Além dos dados do levantamento, o governo apresentou um balanço das ações voltadas à proteção das mulheres. Atualmente, a rede de atendimento conta com 31 unidades especializadas, resultado da ampliação promovida nos últimos anos. Somente em 2025, mais de 70 mil atendimentos foram realizados pela Secretaria da Mulher.

A expectativa é que a pesquisa se torne uma ferramenta permanente para orientar decisões, fortalecer a rede de acolhimento e ampliar as ações de prevenção à violência de gênero em todo o Distrito Federal.

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