Dono de uma das maiores reservas de terras raras do mundo, Goiás tenta dar um passo além da extração mineral. O governo estadual articula uma estratégia para que o processamento desses materiais — hoje concentrado no exterior — passe a ser feito dentro do próprio estado, ampliando o valor agregado da produção.
A movimentação ganhou fôlego com a entrada de um novo sócio na mineradora Serra Verde, instalada em Minaçu, no norte goiano. A americana USA Rare Earth Inc. se juntou ao grupo que já contava com fundos internacionais, em uma tentativa de estruturar uma cadeia produtiva mais completa, que vá da mineração ao produto final.
Hoje, apesar de o Brasil ter uma das maiores reservas globais de terras raras, a dinâmica ainda repete um padrão antigo: a matéria-prima é extraída e enviada para fora — principalmente para a China — onde passa por processamento antes de retornar ao mercado internacional com maior valor.
A aposta do governo goiano é inverter essa lógica. A ideia é atrair investimentos para etapas industriais mais sofisticadas, como separação dos minerais, metalização e produção de ligas e ímãs, itens essenciais para setores como tecnologia, energia limpa e indústria automotiva.
A estratégia inclui acordos internacionais. Em março de 2026, o estado firmou parceria com o governo dos Estados Unidos para cooperação no setor de minerais críticos. O objetivo é estimular pesquisa, qualificação de mão de obra e um ambiente regulatório mais competitivo, além de abrir caminho para novos investimentos.
Na prática, o plano busca transformar Goiás em um polo geoeconômico nesse mercado, ainda altamente concentrado. Embora a China detenha cerca de metade das reservas globais, o país domina mais de 90% da produção mundial de terras raras, sobretudo nas etapas de processamento.
A mina da Serra Verde é hoje o principal ativo brasileiro nesse segmento. Em operação comercial desde 2024, tem capacidade para produzir até 5 mil toneladas por ano de óxidos como disprósio, térbio, neodímio e praseodímio — insumos estratégicos para a indústria de alta tecnologia.
Mesmo com a nova composição societária, a operação em Minaçu segue sob comando da equipe já instalada. A empresa emprega cerca de 400 trabalhadores, a maioria moradores da própria região.
O movimento do governo também passa por ajustes internos. Em 2025, foi aprovada uma lei estadual que cria incentivos e estabelece diretrizes para o desenvolvimento da indústria de minerais estratégicos, com foco em consolidar projetos em cidades como Minaçu, Nova Roma e Iporá.
Ao tentar internalizar etapas hoje realizadas fora do país, Goiás entra em uma disputa global por tecnologia, investimentos e autonomia produtiva — um jogo em que o controle sobre as terras raras tem peso crescente na economia e na geopolítica.




